09/11/2009

Mulherada e homamarada não machista, assinem o Manifesto em defesa da liberdade e da autonomia das mulheres

NÃO À VOLTA DA INQUISIÇÃO

Mulheres do mundo inteiro lutam há milênios contra as opressões a que foram e continuam sendo submetidas.

Contra a inquisição elas não se calaram e, mesmo sob torturas e mortes, lutaram pelo direito à liberdade. Lutaram por igualdade/liberdade/fraternidade na Revolução Francesa e escreveram a 1ª Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã e, mesmo tendo como resposta a esta luta a condenação à guilhotina, não pararam de lutar.

Conquistaram os direitos civis com as lutas sufragistas, direitos trabalhistas, cidadania e o das últimas décadas do século XIX em diante,
acrescentaram o direito de decidir e a autonomia sobre o próprio corpo nas lutas cotidianas.

Nós brasileiras, nos somamos às mulheres do mundo todo, lutando contra a escravidão, contra diferentes ditaduras e tantas outras formas
de opressão. Consolidamos direitos iguais como cidadãs e cidadãos na Constituição Federal de 1988, entre eles o direito de ir e vir para todas as pessoas que vivem neste país, independente de orientação sexual, idade, raça/etnia.

A erradicação de toda forma de violência e discriminação contra as mulheres é um compromisso firmado pelo Estado brasileiro em diferentes tratados internacionais de direitos humanos, como: a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir, e Erradicar a Violência contra a Mulher, da OEA (Convenção de Belém do Pará) e da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), da ONU, e em leis nacionais como a Constituição Cidadã e a Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha. E é uma das prioridades nas ações do governo, por meio do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, assumidos pelo Estado de São Paulo e pelos municípios da Região do Grande ABC.

Num Estado de Direito como o nosso, constituído e baseado nos princípios da democracia e do respeito à liberdade e igualdade de mulheres e homens, independente de pertencer a qualquer raça, cor, credo, orientação sexual ou idade; não podemos admitir que atitudes como a das e dos alunos/as da Universidade Bandeirantes (UNIBAN), que no dia 22/10/2009 discriminaram e ofenderam Geysi Arruda, aconteçam de forma impune.

Manifestamos nossa total indignação à violência sofrida pela aluna Geysi Arruda e pelo cerceamento da sua liberdade e exigimos que sejam tomadas todas as medidas no sentido de apurar as responsabilidades por tais atos e que as pessoas envolvidas respondam perante as instâncias cabíveis.

Apelamos para que a UNIBAN promova atividades de esclarecimentos e reflexão sobre direitos humanos e respeito à autonomia das mulheres, como formas de contribuir para a garantia da igualdade entre as pessoas, sem nenhuma forma de discriminação.

Continuaremos lutando sem deixar retroceder nem um milímetro das nossas conquistas, em especial a nossa autonomia.

São Bernardo do Campo, 03 de setembro de 2009.

FRENTE REGIONAL DE COMBATE À VIOLÊNCIA GRANDE ABC PAULISTA E REGIÃO

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01/11/2009

Não somos racistas? Eu tenho vergonha alheia da classe média racista e da polícia que compactua com ela

Morro de vergonha alheia quando vejo este show de horror, preconceito e discriminação e mais quando tudo, apesar de registrado, é entendido pela polícia como algo que não é demonstração de racismo.

O que mais esta médica sem noção e descontrolada deveria fazer para o delegado entender que suas ações foram desrespeitosas, injuriosas, preconceituosas e discriminatórias?

O que mais os leitores deste blog, que afirmam que não existe racismo no Brasil, que acusam os negros (ao lutarem contra este tipo de situação vivida cotidianamente como a que viveu este funcionário do check-in da Gol do aeroporto de Aracaju)  de   ‘racializar o Brasil’, de quererem ‘acabar com a belíssima democracia racial que temos’, de desejarem criar ‘ódio racial no Brasil’, precisam ver para se convencerem que vivemos em um país onde o racismo impera, humilha, exclui e mata?

A classe média conservadora representada por esta médica preconceituosa e descontrolada é prova cabal de que ainda temos muito o que avançar em termos de Justiça para criminalizar os racistas e estender as ações que permitem tornar a sociedade brasileira menos racializada.

O que mais é preciso ser visto e dito para que os opositores às cotas e às ações afirmativas entendam que  a condição socioracial desta médica descontrolada e preconceituosa faz com que ela pense que tem mais direitos que os demais mortais no planeta? Ela chega 15 minutos antes da partida  de um vôo internacional e acha que os funcionários da companhia e do aeroporto estão à disposição dela!  A condição privilegiada de branquitude torna pessoas como esta médica crianças mimadas que ao ser contrariadas acham que têm o direito de agir como ela agiu.

Na mente racista e deturpada desta médica descontrolada sua profissão e sua branquitude lhe dão poder de embarcar mesmo que seu atraso tenha inviabilizado seu embarque e em sua mente deturpada pelo racismo o raciocínio que impera é o de:  “como um ‘nego’ qualquer, balconista de um check-in ousa impedi-la? Quem é esse ‘morto de fome’ diante dela?” A quem, inclusive, ela considera que tem o direito de ameaçar: “sou médica e se você seu ‘cachorro’, seu ‘negô’, seu ‘morto de fome’ precisar de mim, vai morrer, não vou socorrê-lo”.

E com todo este show de barbárie verbal e  gestual registrado, a polícia sequer faz o boletim de ocorrência! E não fez porque as partes em questão estão em posição de desigualdade: era uma médica branca de classe média, passageira de um vôo internacional, contra um balconista negro do check-in de uma companhia aérea, simples assim.

A desigualdade social no Brasil não se separa da desigualdade racial, só não as enxerga quem não tem olhos de ver.

Clique aqui para assistir o vídeo da reportagem da TV Sergipe

31/10/2009

Os palestinos da Amazônia por eles mesmos

27/10/2009

Rondônia: OS PALESTINOS DA AMAZÔNIA

Cansados de esperar por uma reforma agrária que nunca chega, camponeses fazem a “revolução agrária” na Amazônia.

Por Latuff *

A convite do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), passei uma semana na companhia de  lavradores nos acampamentos da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), no interior do estado de Rondônia. Nestes meus dias ao lado dos aldeões, tive a honra de comer de sua comida, participar de suas conversas, de sua rotina, tomar conhecimento de suas necessidades, de suas demandas e seus sonhos. Povo forte, que sofre o diabo, mas que não tem medo dele.

Por duas vezes passei a noite numa cabana de palha, onde vivem seu Abel e sua esposa Zilda. Reservaram uma cama pra mim, me receberam com todo carinho e gentileza. Mesmo na simplicidade daquela choupana, havia uma extrema preocupação em me agradar, na melhor tradição de hospitalidade do homem do campo. Acordava-se bem cedo, ainda escuro.
“Bom dia, dormiu bem?”. Escova de dentes na mão, rumo ao rio que beira a cabana. No moedor a manivela, os grãos de café eram preparados para o desjejum. O leite fervia no fogão a lenha. A mesa posta, os copos, os talheres, o silêncio era discretamente interrompido tanto por mim quanto pelos pássaros. Daqui a pouco seu Abel já estava seguindo para a roça, pra cortar lenha, pra capinar a terra, irrigar as mudas, trabalho árduo para transformar seu pequeno pedaço de selva em lar. Os lavradores humildes precisam de bem pouco para viver uma vida digna, e nem mesmo isso lhes é permitido. Com o argumento do combate ao desmatamento, o IBAMA persegue e aplica multas altas aos que vivem da agricultura de subsistência, usam da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança e mesmo tropas do Exército para sufocar as comunidades, como no caso de Rio Pardo, onde barreiras foram erguidas nas entradas e saídas, pessoas e veículos revistados, postos de combustível do acampamento removidos, um rigor que não tem sido aplicado aos latifundiários, que transformam vastas extensões de floresta nativa em pasto ou monocultura.

O histórico de violência naquela área já vem de longe. No Brasil Colônia, o vale do Guaporé foi palco de disputas imperialistas entre Portugal e Espanha, que só terminaram com as demarcações de terra acordadas pelo Tratado de Madrid em 1750. No século 18 com o ciclo da mineração e particularmente no final do século 19 com o ciclo da borracha, uma grande leva de migrantes de diversas partes do Brasil foram atraídos para a região, causando conflitos agrários com a vizinha Bolívia, que foram resolvidos em 1903 com o Tratado de Petrópolis. Em 1943, como resultado do desmembramento de áreas dos estados do Amazonas e Mato Grosso, foi criado por Getúlio Vargas o Território Federal de Guaporé, tendo sido rebatizado para Rondônia em 1956, em homenagem ao Marechal Cândido Rondon, militar que entre 1910 e 1940 comandou expedições de Cuiabá até o Amazonas para instalar linhas telegráficas e levar a boa e velha civilização branca para o seio dos povos indígenas. Rondônia torna-se estado em 1982.

A Liga dos Camponeses Pobres surgiu em agosto de 1995, quando trabalhadores rurais que ocupavam terras da Fazenda Santa Elina, na cidade de Corumbiara, resistiram ao brutal despejo promovido por policiais e jagunços, resultando na morte de 11 pessoas (em números oficiais), incluindo a menina Vanessa de apenas 6 anos, no que ficou conhecido como o “Massacre de Corumbiara”. De lá pra cá, cansados de esperar por uma reforma agrária que nunca chega, os camponeses e suas famílias decidiram promover a “revolução agrária” no peito e na raça.
São eles os acusados pela revista Isto É de serem sanguinários guerrilheiros ligados (adivinhem) às FARC.

O que pude presenciar durante minha visita aos acampamentos foram trabalhadores rurais e suas famílias armados, isso sim, de uma força de vontade poderosa, capaz de enfrentar os rigores da Amazônia Ocidental. O clima equatorial, extremamente quente e úmido, onde o sol inclemente castiga a carne, as doenças tropicais como a Leishmaniose e a malária, que por aquelas bandas são tão comuns quanto um resfriado, animais selvagens como onças, porcos-do-mato e serpentes venenosas, um risco sempre presente, oculto pela densa vegetação.

Mas não são os rigores da selva amazônica os maiores inimigos do povo do campo. São os fazendeiros milionários e seus exércitos particulares formados por assassinos de aluguel e policiais, cujas ações criminosas são sustentadas por políticos locais e a imprensa corrupta, que alimentada com verbas publicitárias e mesmo matérias pagas, tenta demonizar a justa resistência dos pequenos agricultores. Os matadores são conhecidos por todos, andam tranquilamente pelas ruas, por vezes, ostensivamente armados. Não são raras as execuções a luz do dia, a vista de todos. Qualquer um que tenha coragem de, por exemplo, denunciar os pistoleiros num programa de rádio, corre o sério risco de ser assassinado assim que por os pés pra fora da emissora. Conceitos como direitos humanos e cidadania inexistem nos cantões de Rondônia, onde a pistolagem é uma instituição consagrada pela sociedade. Numa corrida de táxi em Ariquemes, junto com mais três passageiros, passei a viagem que durou cerca de 45 minutos ouvindo animadas histórias de fazendeiros, políticos e mortes encomendadas. Uma delas reproduzo aqui.

Um homem pescava num rio. Conseguiu apanhar dois pintados. Amarrou os peixes na garupa de sua bicicleta e seguiu tranquilamente por uma estrada. No meio do caminho foi parado por um fazendeiro e seu jagunço numa caminhonete.

- “Onde você pescou isso?”, perguntou o fazendeiro.
- “Naquele rio logo ali”, respondeu o sujeito.
- “Então pode deixar por aí mesmo, que aquele rio é meu”, disse o fazendeiro, no momento em que o capanga já saía do veículo de forma ameaçadora. O pescador teve de fugir. Ao comentar esse caso com o pessoal da LCP, me disseram que ele teve sorte de não ter sido simplesmente baleado. Essa é somente uma das histórias que explica bem a razão da revolta que o camponês de Rondônia traz consigo no peito.

Historicamente, a reforma agrária no Brasil nunca se deu de maneira espontânea pelos governos, e sim pela pressão feita pelos movimentos populares de luta pela terra, que no caso da LCP, sequer contam com o INCRA para assentar as famílias. Para os integrantes da LCP, não existe o conceito de “desapropriação de terras improdutivas”, visto que mesmo as produtivas, estando em mãos de ricos fazendeiros, servirão invariavelmente aos interesses do agronegócio. Os camponeses da LCP escolhem as grandes fazendas, as ocupam, erguem lonas, resistem ao ataque de jagunços, e depois de 2 a 3 meses fazem demarcação dos lotes, o chamado “corte popular”, inicialmente erguendo cabanas de palha e depois de madeira. Depois de algum tempo, os acampamentos se assemelham a povoados do velho oeste norte-americano, como no caso de Jacinópolis, com farmácia, escola, mercado, tudo feito de tábuas.

Diferente da confortável vida das grandes cidades, onde restaurantes, lanchonetes e supermercados estão logo ali na esquina, nas áreas de acampamento o supermercado mais próximo pode estar a 80km de estradas de terra acidentadas. É natural portanto que os camponeses tenham de caçar para comer, o que justifica a posse de velhas espingardas que servem também para a defesa contra onças e porcos selvagens. Operações constantes do IBAMA e das polícias, tentam tomar estes armamentos rústicos das mãos dos lavradores, impedindo que eles se defendam tanto de animais ferozes quanto de pistoleiros. O direito a legítima defesa também lhes é negado. Os camponeses, no entanto, seguem resistindo a estas agressões como podem. Fecham estradas, bloqueiam o avanço da polícia com barricadas, criam seus próprios sistemas de vigilância e segurança. Não se entregam nunca.

São os palestinos da Amazônia.

* Latuff é cartunista.

27/10/2009

AÇÃO AFIRMATIVA: É necessária uma nova Abolição?

Por Muniz Sodré

27/10/2009

Há uma questão atravessada na garganta de grupos empenhados na defesa das políticas afirmativas da cidadania negra. Trata-se de saber por que os jornalões (nome talvez mais palatável do que “grande mídia impressa”) brasileiros não dão voz alguma a quem se manifesta favorável a medidas como a instituição das cotas ou ao Estatuto da Igualdade Racial. Como bem se sabe, esses jornais vêm dando largo espaço a jornalistas e intelectuais decididos a demonstrar que as ações afirmativas constituem uma nova forma de racismo, já que raça não existe e, ademais, como a população brasileira é predominantemente miscigenada, todos os nossos concidadãos teriam a sua cota de negritude. Logo, não faria qualquer sentido ficar procurando saber quem é negro ou branco para proteger o primeiro.

Foi essa a questão debatida nos dias 14 e 15 de outubro, durante o seminário “Comunicação e Ação Afirmativa: o papel da mídia no debate sobre igualdade racial“, realizado na Associação Brasileira de Imprensa por entidades como Comdedine, Cojira e Seppir. É bem sabido que há vozes discordantes das opiniões oficiais dos jornalões, por parte de jornalistas de peso, alguns dos quais pertencentes aos quadros desses mesmos jornais. É o caso de Elio Gaspari, Miriam Leitão e Ancelmo Gois. Estes dois últimos, aliás, foram palestrantes no seminário.

Uma instituição retrógrada

Na mesa sobre “a responsabilidade social da mídia e o debate sobre raça” – que dividi com a jornalista Márcia Neder, da revista Claudia –, comecei afirmando que há certas visibilidades que nos cegam. O sol, por exemplo, se tornado excessivamente visível (olhado de frente), nos impede de enxergar. Mas há também objetos sociais que, se tornados visíveis demais, podem bloquear a visão de quem antes acreditava ver. Parece-me ser este o dilema da cor, do fenótipo escuro, na atualidade brasileira, onde vislumbro um caso de cegueira cognitiva.

De fato, a questão vem sendo tratada como ser pró ou contra o racialismo. A maioria dos favoráveis a propostas como o Estatuto da Igualdade Racial, cotas para universitários etc., lastreia os seus argumentos com as razões do anti-racismo; os desfavoráveis, embora reconhecendo a existência episódica e anacrônica de incidentes racistas, tentam fazer crer que vivemos no melhor dos mundos em termos de conciliação das diferenças étnicas e que seria, portanto, um retrocesso civilizatório racializar a população. Curioso é que esses mesmos argumentos desfavoráveis, sem que seus autores se dêem conta, são racialistas em última análise, ao apelarem para as noções de miscigenação biológica.

Por outro lado, de modo geral, todos se habituaram a pensar na escravidão ora como uma mácula humanitária, ora como um anacronismo, uma instituição retrógrada na história do progresso. Vale, entretanto, apresentar uma opinião de outro matiz, a de Alberto Torres, autor de O Problema Nacional Brasileiro. Foi um dos grandes explicadores do Brasil entre o final do século 19 e início do 20.

A saudade do escravo

Conservador em termos sociais (refratário à urbanização e à industrialização), propugnador de uma República autoritária, Torres revela-se, entretanto, interessante em termos metodológicos e teóricos. Diz em seu livro que “a escravidão foi uma das poucas coisas com visos de organização que este país jamais possuiu. (…) Social e economicamente, a escravidão deu-nos, por longos anos, todo o esforço e toda a ordem que então possuíamos e fundou toda a produção material que ainda temos”.

Torres era, insisto, autoritário e conservador. Gerou epígonos como Oliveira Vianna, esse mesmo que chegou a justificar em sua obra o extermínio do “íncola inútil”, isto é, do habitante das regiões empobrecidas do país. Era, entretanto, um conservador diferente: discordava das teses sobre a inferioridade racial do brasileiro, não era racista. Sua frase sobre a escravidão é algo a ser ponderado, principalmente quando cotejada com o dito de Joaquim Nabuco: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. (…) Ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância” (Minha Formação).

É célebre essa passagem sobre a memória afetiva da escravidão – a saudade do escravo. Ela é a superfície psicológica do fato histórico-econômico de que as bases da organização nacional foram dadas pelo escravismo. Por isso, vale perguntar que apreensão os brasileiros fazem desse fato, pouco mais de um século depois da Abolição.

Perpétuos cães de guarda

Alguns pontos devem ser considerados:

1. A palavra “apreensão” não diz respeito a concepções intelectuais, e sim, à incorporação emocional ou afetiva do fenômeno em questão. No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito o seu ethos, isto é, a sua atmosfera sensível que nos diz, desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar.

2. A reinterpretação afetiva da “saudade do escravo”, que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.

Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?

Nada, portanto, da velha grosseria racista, da velha sentença de “pão, pano e pau” proferida pelo padre Antonil a propósito dos negros. Não há mais lugar histórico para o “pau” desde a Abolição, ou melhor, desde a Lei Caó. O argumento explicitamente racista não leva ninguém a lugar algum no império das tecnologias do self incrementadas pelo mercado e pela mídia.

Mas é imperativo para o senso comum da direita social que as posições adrede fixadas não se subvertam. O escravismo é mais uma lógica do lugar do que do sentido. É dele que, de fato, têm saudade os que acham um escândalo racial proteger as vítimas históricas da dominação racial. E os jornalões, intelectuais coletivos das classes dirigentes, não fazem mais do que assim se confirmarem ao lhes darem voz exclusiva em seus editoriais e em suas páginas privilegiadas, ao se perpetuarem como cães de guarda da retaguarda escravista. É oportuno prestar atenção à letra da canção de Cartola (“Autonomia”) em que ele afirma a necessidade de “uma nova Abolição”.

Originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

23/10/2009

Nova África: Um novo olhar sobre o continente

Do Nós da Comunicação

João Casotti e Marcos Moura

Foto: Paulo Eduardo Palmério, o Padu

O continente africano é historicamente apresentado com base em aspectos negativos, como miséria e conflitos étnicos. Para tentar reverter essa imagem, a TV Brasil vem apresentando, desde o dia 25 de setembro, todas as sextas-feiras, às 22 horas, a série ‘Nova África’, produzida pela Baboon Filmes, vencedora de concorrência pública.

Donos da produtora, os repórteres cinematográficos Henry Ajl e Markus Bruno convidaram o jornalista Luiz Carlos Azenha e a historiadora Conceição Oliveira para definirem a linha editorial do projeto, que, a princípio, deveria visitar 46 dos 53 países do continente mostrando a realidade cultural de cada um deles. O objetivo é quebrar os estereótipos estabelecidos há décadas com relação à África por meio dos livros escolares, do cinema e da mídia e mostrar um “olhar de dentro dos países”, esquecendo “o olhar de fora”.

“A ideia inicial era percorrer o maior número de países para mostrar toda a diversidade do continente. Mas a logística e o tempo de exibição do programa (26 episódios no mesmo número de semanas) fez com que mudássemos os planos: aprofundaremos os temas. Se seguíssemos à risca os 43 países em uma temporada, correríamos o risco de cobrir muito superficialmente a África, o que geralmente acontece com esse tipo de pauta”, afirma Aline Midlej, repórter da expedição, que conta ainda com o produtor Paulo Eduardo Palmério, o Padu, e o cinegrafista Henry Ajl. A equipe esteve, até agora, em seis países africanos (Moçambique, África do Sul, Botsuana, Namíbia, Ruanda e República Democrática do Congo) e na Bélgica, uma escala europeia fundamental para entender todas as questões políticas e coloniais do cotidiano congolês. Só na viagem de estreia, nos quatro primeiros países listados, foram 12 mil quilômetros de carro cruzando o continente.

“Existem coisas que somente no lugar a gente percebe. Aí vem a parte jornalística interessante, que é não deixar passar. Há situações que não planejamos, mas aconteceram, e isso foi muito rico”, explica Conceição.

Ambas concordam que muito dos estereótipos criados em torno da África está na forma equivocada com que o continente é tratado pela mídia. “A imprensa ainda não aprendeu e está longe de aprender a falar sobre a África. As pessoas são obrigadas a olhar de outra forma para o continente, por situações como a realização da Copa do Mundo, por exemplo. E não por iniciativa da imprensa, mas do próprio continente que, aos poucos, está conseguindo impor e mostrar seu protagonismo histórico. A imprensa, em geral, não aprendeu quase nada sobre a África. Existem projetos paralelos, mas a grande imprensa, inclusive a brasileira, ainda cerca a África de estereótipos”, salienta Aline.

Apesar da Copa estar cada vez mais próxima, o foco do episódio sobre o país foi centrado no pós-apartheid. “Nossa pauta no país era a relação com a terra, já que não houve reforma agrária, após a queda do regime de segregação racial. Depois de 15 anos do fim do apartheid, apenas 3% das terras voltaram para a mão dos negros. A outra parte está nas mãos de 60 mil fazendeiros brancos. Mas apesar de não ser a pauta principal, pudemos ver que, hoje, Johannesburgo é um grande canteiro de obras para a Copa”, comentou Conceição.

Ela também destacou uma iniciativa interessante de países que fazem fronteira com a África do Sul. “Está sendo criada uma cultura transnacional. Namíbia e Botsuana, por exemplo, têm planos de atrair turistas, que poderiam visitar parques próximos durante a Copa. As viagens seriam curtas. Acho que esse é um potencial muito importante. O turismo explorado de maneira sustentável pode criar uma nova relação. Mas estamos falando de apenas uma parte do continente. A grande pegada da série é isso: acabar com uma visão recorrente e uma série de expressões que definem grosseiramente o continente ”, prosseguiu a historiadora.

Influência brasileira no continente africano

Moçambique foi a primeira escala da viagem e recebeu carinho especial da produção, ocupando três episódios da série. Ficou clara para a equipe a influência cultural brasileira no país lusófono. “Brasileiros e moçambicanos têm uma relação bastante antiga na literatura e na música. Percebemos vários escritores que leram e têm muitas referências da poesia e literatura brasileira. Na atualidade, o que percebemos é a influência da TV brasileira, que chega via parabólica de maneira muito recortada. As duas TVs que pegam são Record e Globo, com isso, eles acompanham muito as novelas e esses seriados para adolescentes, como Malhação e coisas do gênero. Assim, o olhar que a massa tem é muito recortado. É a imagem da zona sul carioca, por exemplo. Diferente do mundo intelectual, onde existe uma troca. Não vemos uma troca cultural profunda veiculada de maneira massiva. Percebemos jovens de Moçambique falando na linguagem de nossas novelas. Se a TV continuar da mesma forma, será impactante”, esclarece Conceição.

“O que me chamou a atenção é um certo imaginário muito forte dos moçambicanos sobre os brasileiros. Acho que há algo bom nisso se for trabalhado para estreitar nossos laços com os países no continente africano que falam português. Para que pessoas como a Ana, uma moça da Ilha de Moçambique que se emocionou simplesmente ao saber que éramos brasileiras, possa de fato conhecer o que é o Brasil. No caso de Moçambique temos em comum o idioma e há uma série de pontos que devem ser trabalhados. Ana é um grito que traduz uma vontade de criar elos mais próximos entre os países. Quanto mais nos afastamos das grandes cidades como a capital Maputo, esse imaginário cresce. Esses vínculos precisam ser trabalhados, pois há uma série de semelhanças que vão além da colonização portuguesa”, concordou Aline, que citou o exemplo de um músico para citar como a distância física pode ser encurtada.

“O rapper Azagaia, que é um homem ligado à internet, com perfil diferente da Ana, tem uma série de lacunas que quer preencher. Ele encontrou Marcelo D2 em um festival, em Portugal, mas ainda não conseguiram fazer uma música juntos. Ele até nos cobrou esse contato. Azagaia nunca viajou de Moçambique para o Brasil, mas consegue, pela internet, diminuir as distâncias”, disse.

Em tempos em que a tecnologia ajuda cada vez mais a educação e inclusão social, não é a internet a principal ferramenta de comunicação dos africanos, e sim os telefones celulares. “Percebemos foi que o celular é uma tecnologia disseminada, que chega ao interior de Moçambique, por exemplo. Está em todos os lugares. As propagandas de celulares nas ruas são fortíssimas. Azagaia apareceu na produção a partir de uma conversa minha com um jovem moçambicano, de Maputo, pelo Twitter. Ele possui blog e compartilha notícias de sua localidade. Em Moçambique, onde pesquisei mais sobre isso, a internet, porém, não é uma coisa estruturada”, assegura Conceição.

20/10/2009

Fala o Movimento negro: Reginaldo Bispo do MNU responde a Magnoli

Procaz, a intelectualidade branca, sua gota de sangue,  e o racismo no Brasil!

por: Reginaldo Bispo*

17/10/09

A propósito da BandNews FM convidar analistas intelectuais para  comentar o livro “Uma gota de sangue: História do pensamento racial” de Demétrio Magnoli, observamos personagens da mais alta estirpe da elite branca e acadêmica brasileira (excluindo os representantes do Movimento Negro Socialista e do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, ambos língua de aluguel, inventados pela elite e a mídia branca racista e capitalista, para serem as vozes pretas, em favor de seu projeto elitista e racista.

Nomes como, Cláudio de Moura Castro, professor, pesquisador e mestre em Educação,
Roberto Romano da Silva, professor titular do Departamento de Filosofia da Unicamp, Carlos Pio, professor de Economia Política Internacional da Universidade de Brasília, Helda Castro de Sá, coordenadora da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos, Alba Zaluar, antropóloga a professora da Universidade do Estado do Rio de  de Janeiro,
Manolo Florentino, historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luiz Werneck Vianna, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, José Augusto Drummond, cientista político e professor da Universidade de Brasília, e Isabel Lustosa, pesquisadora da Fundação Casa Rui Barbosa.

A primeira coisa a saber, é se esses “gênios” leram o livro do “ilustre mercenário” Demétrio Magnoli?  Duvido que já o tenham lido, mesmo sendo o autor líder e ideólogo dos mestres, portanto desconfiamos tratar-se de uma solidariedade incondicional, e portanto ideológica.

Porém o que salta aos olhos é o reacionarismo assumido por quantos se desmancharam em elogios ao livro do intelectual-mercenário, que vai do desconhecimento histórico; passando pela tentativa de reviver a “democracia racial” sepultada pelo MN nos anos 70, com dados e indicadores sociais fartamente encontrados nas publicações das instituições em que atuam; até o mais ridículo conceito da recente descoberta desta nova “inteligência”, de que os negros estão inventando o racismo as avessas, como nos EUA.

Perolas como: “dar direitos diferentes para cidadãos iguais vai contra a construção de uma sociedade igualitária e resulta na repetição de erros do passado que produziram massacres de populações”,  são defendidas de forma aparentemente ingênuas e descompromissadas, são verbalizadas pelos “dignos pensadores”.  De que igualdade e massacre estão falando?  Da igualdade no Brasil, que concentra as riquezas e privilégios nas mãos de 30% dos cidadãos brancos e seus semelhantes e do genocídio aos negros e indígenas ao longo da historia brasileira, pela hegemonia das elites que eles defendem?

Há entre eles, quem defenda o velho conceito de meritocracia, como Carlos Pio, se esquecendo que esse conceito foi construído como privilégio para legitimar a formação, emprego e poder, exclusivo para as elites ao longo de mais de 120 anos. Ou aqueles que sacam o argumento “antidemocrata e inconstitucional” como Romano, Drummond e Helda de Sá . Esquecem que a democracia formal e as constituições do Brasil sempre consagraram os privilégios das minorias econômicas e proprietárias em detrimento da maioria do povo, jamais garantindo igualdade, liberdade, comida na mesa, trabalho e educação para os negros, indígenas, praticando a violência e repressão, sempre!

Os princípios advogados por Helda  e Manolo Fiorentino, “de quebra … da igualdade de direitos constitucionais” e de “tratar-se de privilégios para negros”, são uma daquelas escrotidões ideológicas sem a menor coerência e substancia argumentativa. Os poderes da republica quebram diariamente estes princípios, legislando em causa próprio e atribuindo privilégios para brancos nascidos em berço de ouro e a seus iguais, capitalistas, proprietários, detentores de mandatos, togas judiciárias, cargos executivos, acadêmicos e para os fardados ou não, que usam armas na cintura. Todos brancos ou a seu serviço.

Augusto Drummond, argumenta que “a sociedade brasileira é miscigenada e por isso será difícil definir quem pertence a determinada raça.” Notem, que é ele que com seu argumento que confirma a existência de raça biológica. Uma conveniência que a categoria intelectual a qual pertence, que agora nega, inventou em vários momentos da historia humana, para justificar e legitimar os privilégios e poder de seus semelhantes, brancos “superiores”. Essa não é uma invenção dos negros do Movimento Negro.

É só observar quem está morrendo dos dois lados na guerra cotidiana do Rio de Janeiro, e nas ações policiais em qualquer grande cidade do Brasil, e saberão sem duvidas, que por um critério muito simples, a policia sabe quem é negro. Caberiam ao ilustre cientista político, manter-se coerente, e desnudar o que faz com que tantos negros sobrevivam na extrema pobreza e os nobres desta terra, coincidentemente, sejam todos brancos, europeus de primeira e não miscigenados. Porque as elites não se misturam?

Enquanto a plebe se homogeneíza, tornando-se negros, sem discriminação ou preconceito. As elites brancas, não misturam uma gota de sangue, em nome se sua hegemonia econômica e política, e de um projeto higienista e racista contra negros e indigenas.

Opor desigualdades sociais ás desigualdades raciais, exercício de Moura Castro, Roberto Romano, Helda Sá, Alba Zaluar, Werneck Vianna e Isabel Lustosa, é uma destas descobertas cientificas de ocasião. Não levando em conta todo o acumulo da sociologia e dos indicadores sócio-economicos que apontam para a paridade da equação: Sem emprego, sem moradia, sem educação, baixos salários, sem terra, sem direitos, sem poder econômico e político, sem nada = (IGUAL)  A   N E G R OS E SEUS DECENDENTES. Então nobres semi-deuses donos da verdade, há uma coincidência aqui ou não? Vocês depois de tanto tempo segregando os negros, decidiram agora nos despojar de nossa negritude, barrar o protagonismo de nosso povo, é isso?

Nossos espaços, sempre democráticos, de Palmares aos terreiros de candomblé, das irmandades e clubes aos blocos e escolas de samba, todos sempre estiveram abertos, permitindo ate que figuras como Fry, Magee e tantos outros, adeptos da hipócrita “teoria do novo racialismo”, que explorassem nossa intimidade, de forma oportunista, construindo currículos, prestígios, carreiras e fortunas, para nos traírem como o fazem agora.

Dos argumentos recém surgidos da “moderna academia”, é de pasmar o dramático apelo a manutenção dos privilégios e do poder nas mãos do status quo. Em que conceitos e elementos científicos e baseada a máxima, senão apenas achismos dessa elite atrasada, decadente e parcial intelectualidade, que jamais leu Florestan Fernandes? E se leram, são analfabetos funcionais! “A intolerância e o racismo as avessas… Alimenta ódio racial entre brancos e negros”, Concluem Manolo Florentino, Werneck Vianna, Augusto Drummond, Isabel Lustosa, Moura Castro, Roberto Romano e Carlos Pio. Procrastinadores! Do que falam Oh, caras pálidas? Por acaso estais a falar de um outro país, de um outro povo, de uma outra realidade? Jamais houve cá nessa terra, um poder político e econômico de negros, portanto não havendo jamais, racismo de negros contra brancos.

O ódio racial, o racismo, elemento ideológico estrutural e estruturante sempre existiram, como elemento fundamental da política de dominação e privilégios das elites lacaias de D. João, protegida pelo império dos Orleans e Bragança e são a essência do pensamento da elite monarco-escravista de ontem e de hoje. A defesa e a pratica da segregação, não é de agora, não nas universidades com cotas, não partiu do nosso povo, mas sim de intelectuais puxa-sacos, de classe média, ávidos por servirem as elites brancas racistas ditas quatrocentonas, que não misturam nem uma gota do seu sangue...

*Coordenador Nacional de Organização do Movimento Negro Unificado.

16/10/2009

DEBATE DA KU-KLUX-KLAN BRASILEIRA: eu tenho vergonha alheia

NOTÍCIA
15/10/2009 – 09:51:15
Relato sobre cerceamento da palavra em lançamento anticotas

Maria das Graças dos Santos*

Estive hoje (13/10) no lançamento do livro “Uma gota de sangue” do Demétrio Magnoli, na Livraria Cultura, em Brasília, um local totalmente elitizado da cidade, de difícil acesso para a maioria de nós. Fiz o convite, mas poucos de nós apareceram. O auditório estava lotado, mais ou menos cem pessoas. E, lógico, uns 90% brancas brasileiras. Quando cheguei com uma amiga, o Demétrio já estava fazendo sua exposição. Fiquei surpresa com a mesa:

-Demetrio Magnoli – geografo, etc, etc, etc.;
-Roberta Kaufman – procuradora do DF;
-George Zarour – antropólogo;
-Paulo Kramer – professor da UnB, com vários processos sobre prática de racismo contra alunos  da Universidade;
-Demóstenes – senador DEM/GO;
- Gabeira – deputado PV/RJ

O evento estava sendo filmado pela TV Câmara e transmitido pelo radio Band News FM.

Demétrio  fez o mesmo discurso – da tentativa de racialização do Brasil, etc, etc. A procuradora Roberta  veio atrás, repetindo o mesmo discurso, e procurando dar uma aula para a platéia, concluindo em tom de euforia que  não tinha havido institucionalização do racismo no Brasil.

O antropólogo George Zarour  veio elogiando o Demétrio, com quem teve contato através do  livro “Corpo da Pátria”, indo para o grande geógrafo Milton Santos, que não concordava com cotas, conforme ele dizia, e o Darcy Ribeiro também não concordava etc.

Paulo Kramer, que foi identificado como cientista político, é o tal professor da UnB, que tem vários processos de racismo. Afirmou que os racialistas, nós né, tinham todo o espaço na mídia, e que éramos bancados por muito dinheiro. E outras mentiras.

Gabeira, que ficou o tempo todo encolhido, com as mãos juntas sobre o rosto, falou de sua juventude, e de  que quando tinha 21 anos, para ele a questão de raça era uma ficção. Depois entrou na guerrilha e só veio ter contato com o tema na Europa. Foi contra a posição do Demétrio, que coloca no seu livro que o multiculturalismo divide; ele não acredita nisto, muito pelo contrário. Mas defende a mestiçagem e afirma que até a Luzia era mestiça. E que sempre apoiou o MN, e que assinou o requerimento para levar o Estatuto para discussão no plenário. Foi tipo vaselina, ficou no muro.

Demóstenes afirmou que o livro dava prazer de ler. E vai no mesmo caminho do Demétrio, fala do caso jurídico do Supremo sobre se judeu é raça, do texto do Demétrio no Estadão, chegando ao ABSURDO de afirmar que as pesquisas sobre o bom resultado dos cotistas eram manipuladas. A toda fala, a platéia ia ao delírio, batendo palmas.
Até que chegou ao clímax total:

Demetrio informa que as perguntas enviadas não poderiam ser totalmente respondidas, por falta de tempo – já que havia pressão da livraria – e começou a escolher as perguntas (como era esperado). Neste ponto uma pessoa (negra) pediu para falar e ele, ríspido como sempre, disse que não, e começou a passar as perguntas (que  ele não tinha gostado, conforme dizia de forma irônica).

A pessoa, de nome Joel, insistiu, e ele disse não. Neste momento vários de nós começamos a gritar, DEBATE, DEBATE, DEBATE. E ele começou a ficar nervoso e fazer com que a platéia a seu favor gritasse contra também. Neste momento se juntou ao Joel outro militante que tinha levado uma faixa com a frase DEBATE DA KU-KLUX-KLAN BRASILEIRA. Eles foram ficando nervosos, e o Kramer gritou:  Vamos todos dar uma vaia – e a platéia dava. E pediu de novo, e a platéia novamente vaiava.

E foi juntando pessoas que davam apoio ao Joel, que insistiam para que se desse voz ao outro lado. Neste momento o Demetrio SURTOU. Afirmando que iria explicar o que estava acontecendo – que eles tinham identificado na internet um grupo do Yahoo, que tinha apenas 59 membros, coordenado por um alto funcionário do Estado brasileiro, Humberto Adami, que coordenava INVASORES para invadir os lançamentos de livros, e que no Rio  de Janeiro tinha sido formada uma milícia fascista. Pedia que fotografassem a todos nós [e são os movimentos negros os fascistas?]. SURTOU totalmente. Ficava gritando mentiras como se fossem verdades, chamava os seguranças para nos retirar, foi uma confusão. Só que isto trouxe várias pessoas, muitos jovens brancos, para o nosso lado, apoiando.

E aí ele foi retirado para a mesa de autógrafos, com uma fila enorme, já que livraria já ia fechar. Ficamos até o final, conversando com várias pessoas que nos procuraram.

Então mais uma vez ele mostrou que está numa CRUZADA COVARDE de combate aos direitos do povo negro, falando mentiras, mentiras, mentiras, esperando até o momento que elas se tornem verdades. Ele realmente está fazendo o trabalho direitinho. Também está sendo bem pago, mas trabalha com prazer.

Das pessoas que estavam lá só eu (Que a toda fala dele eu repetia VOCÊ MENTE, VOCÊ ESTÁ MENTINDO) participo do grupo discriminação racial.

Ele e seu pessoal estão realmente nos monitorando. Já sabíamos disto. Eu acho que o Adami deveria processá-lo por calúnias irresponsáveis.

*Ativista do Movimento Negro/DF

16/10/2009

Solidariedade a Luis Nassif: Eu tenho vergonha alheia da Veja

Do blog do Luis Nassif

Por Luis Nassif

Ainda não tenho os dados à mão. Mas, pelo que sou informado, fui condenado a pagamento de 100 salários mínimos pelo juiz Vitor Frederico Kümpel, da 27ª Vara Cível, em processo movido por Mário Sabino e pela revista Veja. No primeiro processo – de Eurípedes Alcântara – fui absolvido.

Pode haver apelação nas duas sentenças.

Ao longo dessa longa noite dos celerados, a Abril lançou contra mim os ataques mais sórdidos que uma empresa de mídia organizada já endereçou contra qualquer pessoa. Escalou dois parajornalistas para ataques sistemáticos, que superaram qualquer nível de razoabilidade. Atacaram a mim, à minha família, ataques à minha vida profissional, à minha vida pessoal, em um nível só comparável ao das mais obscenas comunidades do Orkut.

Não me intimidaram.

Apelaram então para a indústria das ações judiciais – a mesma que a mídia vive criticando como ameaça à liberdade de imprensa. Cinco ações – quatro em nome de jornalistas da Veja, uma em nome da Abril – todas bancadas pela Abril e tocadas pelos mesmos advogados, sob silêncio total da mídia.

Não vou entrar no mérito da sentença do juiz, nem no valor estipulado.

Mas no final do ano fui procurado por um emissário pessoal de Roberto Civita propondo um acordo: retirariam as ações em troca de eu cessar as críticas e retirar as ações e o pedido de direito de resposta. A proposta foi feita em nome da “liberdade de imprensa”. Não aceitei. Em nome da liberdade de imprensa.

Podem vencer na Justiça graças ao poder financeiro que lhes permite abrir várias ações simultaneamente. Quatro ações que percam não os afetará. Uma que eu perca me afetará financeiramente, além dos custos de defesa contra as outras quatro.

Mas no campo jornalístico perderam para um Blog e para a extraordinária solidariedade que recebi de blogueiros que sequer conhecia, de vocês, de tantos amigos jornalistas que me procuraram pessoalmente, sabendo que qualquer demonstração pública de solidariedade colocaria em risco seus empregos. Melhor que isso, só a solidariedade que uniu minhas filhas em defesa do pai.

PS – Como o processo continua, vou bloquear comentários no post, que eventualmente poderia ser utilizados pela parte contrária.

08/10/2009

Nota Pública da CPT:Mais uma vez mídia e ruralistas investem contra o MST

Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional

Assessoria de Comunicação


NOTA PÚBLICA

A Coordenação Nacional da CPT vem a público para manifestar sua estranheza diante do “requentamento” por toda a grande mídia de um fato ocorrido na segunda feira da semana passada, 28 de setembro, e que foi noticiado naquela ocasião, mas que voltou com maior destaque, uma semana depois, a partir do dia 5 de outubro até hoje.

Trata-se do seguinte: no dia 28 de setembro, integrantes do MST ocuparam a Fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do estado de São Paulo. A área faz parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e que pertencem à União. A fazenda Capim, com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale, uma das maiores empresas produtora de suco de laranja do mundo, para a monocultura de laranja. O MST destruiu dois hectares de laranjeiras para neles plantar alimentos básicos. A ação tinha por objetivo chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União.

As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos econômicos. A Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que houvesse regularização fundiária a seu favor.

As imagens da televisão, feitas de helicóptero, mostram um trator destruindo as plantas. As reações, depois da notícia ser novamente colocada em pauta, vieram inclusive de pessoas do governo, mas, sobretudo, de membros da bancada ruralista que acusam o movimento de criminoso e terrorista.

A quem interessa a repetição da notícia, uma semana depois?

No mesmo dia da ação dos sem-terra foi entregue aos presidentes do Senado e da Câmara, um Manifesto, assinado por mais de 4.000 pessoas, entre as quais muitas personalidades nacionais e internacionais, declarando seu apoio ao MST, diante da tentativa de instalação de uma CPMI para investigar os repasses de recursos públicos a entidades ligadas ao Movimento. Logo no dia 30, foi lido em plenário o requerimento para sua instalação, que acabou frustrada porque mais de 40 deputados retiraram seu nome e com isso não atingiu o número regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu.

A ação do MST do dia 28, que ao ser divulgada pela primeira vez não provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para novamente se propor uma CPI contra o MST. E numa ação articulada entre os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da ocupação da fazenda da Cutrale.

A ação do MST, por mais radical que possa parecer, escancara aos olhos da nação a realidade brasileira. Enquanto milhares de famílias sem terra continuam acampadas Brasil afora, grandes empresas praticam a grilagem e ainda conseguem a cobertura do poder público.

Algumas perguntam martelam nossa consciência:

Por que a imprensa não dá destaque à grilagem da Cutrale?

Por que a bancada ruralista se empenha tanto em querer destruir os movimentos dos trabalhadores rurais? Por que não se propõe uma grande investigação parlamentar sobre os recursos repassados às entidades do agronegócio, ao perdão rotineiro das dívidas dos grandes produtores que não honram seus compromissos com as instituições financeiras?

Por que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), declarou, nas eleições ao Senado em 2006, o valor de menos de oito reais o hectare de uma área de sua propriedade em Campos Lindos, Tocantins? Por que por um lado, o agronegócio alardeia os ganhos de produtividade no campo, o que é uma realidade, e se opõe com unhas e dentes á atualização dos índices de produtividade? Por que a PEC 438, que propõe o confisco de terras onde for flagrado o trabalho escravo nunca é votada? E por fim, por que o presidente Lula que em agosto prometeu em 15 dias assinar a portaria com os novos índices de produtividade, até agora, mais de um mês e meio depois, não o fez?

São perguntas que a Coordenação Nacional da CPT gostaria de ver respondidas.

Goiânia, 7 de outubro de 2009.

Coordenação Nacional da CPT

Maiores informações:

Isolete Wichinieski (coordenação nacional da CPT) – (62) 9607-3488

Edmundo Rodrigues (coordenação nacional da CPT) – (63) 9237-9460

Cristiane Passos (Assessoria de Comunicação da CPT) – (62) 8111-2890 / 4008-6406